VI — A Moeda
Chapitre VI
A MOEDA: O FIM DO MONOPÓLIO
O Estado tem uma arma secreta para contornar as restrições orçamentárias: a impressora de dinheiro. Não pode aumentar os impostos? Imprime. Não pode reduzir as despesas? Imprime. A inflação que se segue é um imposto invisível, não votado, que atinge os mais modestos primeiro – aqueles que não têm ativos para se proteger.
A solução não é proibir o Estado de gerir uma moeda. É submetê-lo à concorrência.
6.1 — A concorrência de moedas
O ouro, o Bitcoin, as moedas privadas, regionais, ou mesmo estrangeiras, são autorizados em todas as transações. Cada um pode escolher sua moeda. O Estado continua emitindo a sua, mas não tem mais o monopólio.
Um caderno de encargos enquadra as moedas privadas para evitar abusos: transparência sobre as reservas, auditorias obrigatórias, proteção dos usuários. E sobretudo: todas as transações, qualquer que seja a moeda utilizada, permanecem sujeitas ao imposto. Mudar de moeda não permite eludir sua contribuição. As transações com o Estado (impostos, multas, contratos públicos) são feitas em moeda nacional – o que lhe confere uma vantagem competitiva natural face às moedas estrangeiras.
O que acontece então? Se o Estado desvaloriza sua moeda pela inflação, os cidadãos a abandonam. Voltam-se para moedas mais estáveis. O Estado é punido automaticamente, sem que nenhuma instância tenha que intervir. O mercado disciplina. Esse mecanismo baseia-se em uma ideia simples: os preços agregam um conhecimento disperso que nenhum planejador pode centralizar [11]. Quando os cidadãos fogem de uma moeda, votam com os pés — é o que Hirschman chama de saída [12], a forma mais direta de sanção.
6.2 — A estabilidade como vantagem competitiva
Nesse contexto, o Estado tem todo interesse em manter uma moeda estável. É sua vantagem face ao Bitcoin (volátil) ou ao ouro (pouco prático no cotidiano). Uma moeda nacional estável, apoiada em uma disciplina orçamentária constitucional, torna-se atraente.
O Estado não precisa mais imprimir para “lubrificar” a economia. A própria estabilidade se torna o lubrificante. A confiança substitui a manipulação.
6.3 — O ajuste pela redução, não pela inflação
Em caso de crise, se o colchão orçamentário não basta, reduzem-se as despesas. Não se cria moeda. A redução é dolorosa mas rápida. A economia se ajusta e retoma. Não há sequelas inflacionárias, nem dívida acumulada, nem crise prolongada artificialmente. A inflação, por sua vez, modifica as expectativas dos agentes [90]: uma vez instalada, se auto-alimenta, pois cada um ajusta seus comportamentos em previsão da próxima alta.
É a lição da escola austríaca, confirmada pela experiência Milei na Argentina.
6.4 — Estudo de caso (exemplo empírico) nº1: A dolarização equatoriana (2000)
O Equador adotou o dólar americano como moeda oficial em janeiro de 2000, após uma crise monetária catastrófica [91][92]. O sucre havia perdido 67% de seu valor em um ano. A inflação atingia 96%. Os bancos desmoronavam.
O que funcionou
Fim da hiperinflação. A inflação passou de 96% (2000) para 2-3% já em 2004 [92]. A estabilidade dos preços tornou-se a norma. Os poupadores deixaram de fugir para ativos reais.
Figure 6.7 — Equador: efeito da dolarização sobre a inflação
Credibilidade importada. Ao abandonar sua moeda, o Equador “tomou emprestada” a credibilidade do Federal Reserve. As taxas de juros caíram. O investimento estrangeiro se estabilizou.
Disciplina orçamentária forçada. Sem impressora de dinheiro, o governo não pode mais monetizar seus déficits. Deve equilibrar ou tomar emprestado nos mercados – a taxas que sancionam a irresponsabilidade.
Durabilidade. 25 anos depois, apesar de governos de esquerda (Correa) e de direita, ninguém reintroduziu uma moeda nacional. O consenso popular permanece forte.
O que causa problema
Perda de política monetária. O Equador não pode desvalorizar para absorver um choque externo (queda do petróleo, por exemplo). O ajuste passa inteiramente pelos salários e pelo emprego [93].
Dependência do dólar. As decisões do Fed são tomadas para a economia americana, não equatoriana. Uma alta das taxas US pode estrangular a economia local.
Sem emprestador de última instância. Em caso de crise bancária, o Estado não pode criar moeda para resgatar. O risco sistêmico permanece [92].
Rigidez excessiva? Alguns economistas julgam o sistema rígido demais, privando o país de ferramentas de ajuste macroeconômico [93].
O que mantemos do modelo equatoriano
- A disciplina por impossibilidade de monetização: quando não se pode imprimir, gere-se
- A estabilidade dos preços como bem público adquirido pelo abandono do monopólio monetário
- A prova de durabilidade política: 25 anos sem retrocesso
O que melhoramos
- Concorrência em vez de abandono: nosso sistema mantém uma moeda nacional, mas em concorrência com outras. O Estado guarda uma ferramenta de política monetária, mas disciplinada pelo mercado
- Sem dependência de um banco central estrangeiro: a diversidade das moedas aceitas evita a dependência de uma única autoridade
- Flexibilidade preservada: o Estado pode ajustar sua política, mas os cidadãos votam com os pés (e suas carteiras)
O que não retomamos
- O abandono total de soberania monetária: mantemos uma moeda nacional
- A dependência de um único emissor estrangeiro: a concorrência implica várias alternativas
- A ausência de emprestador de última instância: os seguros privados e o isolamento dos riscos substituem esse papel
6.5 — Estudo de caso (exemplo empírico) nº2: O plano de estabilização israelense (1985)
Israel oferece um contraexemplo fascinante: como parar uma hiperinflação sem abandonar sua moeda [94][95]. Em 1984, a inflação atingia 450% ao ano. O país estava à beira do colapso econômico.
O que funcionou
Choque de credibilidade. O plano combinava congelamento temporário de preços e salários, redução drástica do déficit (de 15% para 1% do PIB), e ancoragem do shekel ao dólar [94]. A inflação caiu para 20% em um ano, depois para um dígito nos anos seguintes.
Figure 6.8 — Israel: efeito do plano de estabilização sobre a inflação
Reformas estruturais simultâneas. O congelamento não era um fim em si, mas uma pausa para permitir os ajustes reais: redução de subsídios, privatizações, liberalização progressiva [95].
Coordenação governo-sindicatos-patronato. O “pacto social” temporário permitiu absorver o choque sem explosão social. Cada parte aceitou sacrifícios imediatos por um ganho coletivo.
Manutenção da soberania monetária. Ao contrário do Equador, Israel manteve sua moeda e seu banco central. A disciplina veio da política, não do abandono de ferramentas.
O que causa problema
O congelamento de preços não é libertário. Controlar temporariamente os preços viola os princípios de livre mercado. Foi uma medida de emergência, não um modelo permanente.
Dependência da vontade política. O plano funcionou porque o governo de união nacional o quis. Sem esse consenso raro, teria fracassado. A “cultura política” não é exportável [95].
Ajuda externa massiva. Os Estados Unidos forneceram 1,5 bilhão de dólares de ajuda emergencial. Nem todos os países têm um aliado tão generoso.
Recaídas possíveis. Sem mecanismo constitucional permanente, o risco de retorno à inflação existe. A disciplina permanece política, portanto frágil.
O que mantemos do modelo israelense
- A prova de que se pode estabilizar sem abandonar sua moeda
- A importância das reformas estruturais acompanhando a estabilização
- O princípio do choque crível em vez do ajuste gradual
O que melhoramos
- Mecanismo automático permanente: nosso sistema inscreve a disciplina na constituição, não na vontade de um governo
- Concorrência monetária: a disciplina vem do mercado (fuga para outras moedas), não de um congelamento administrativo
- Sem controle de preços: a liberdade dos preços é preservada mesmo em crise
O que não retomamos
- O congelamento de preços e salários: incompatível com os princípios libertários
- A dependência de um consenso político excepcional: nosso sistema funciona com políticos ordinários
- A necessidade de ajuda externa massiva: o sistema deve ser autossuficiente